Nome:
Local: Refugio das Caravelas, Paraty - RJ, Brazil

O Veleiro CHAMPAGNE é um sloop Cal de 30´ano 1986. Esta comigo desde 1999 e atualmente esta apoitado na Marina Refúgio das Caravelas em Paraty. Somente a partir de 2002 há registros das viagens na internet. Antes desta passagem pela Região de Paraty, Angra dos Reis e Ilha Grande, houveram passagens por Ilha Bela e Ubatuba, explorando-se todas estas regiões. Tenho estado no barco 6 vezes por ano em periodos de 12 a 20 dias sempre subindo em direção ao Nordeste, sem pressa e sem muito planejamento. Este site, mais do que um meio de divulgação, é principalmente um seguro arquivo pessoal. Uma curiosidade: moro em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso e centro geodésico da America do Sul, portanto estou em um dos pontos mais distantes do mar de todo o continente. Bem vindo a bordo, bons ventos e boa navegada. Fernando Quaresma

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Primeira Viagem Registrada

Pode-se dizer, que a partir desta viagem, o Champagne iniciou uma nova fase. Em 2001 o motor do barco que nunca foi lá estas coisas, foi morrendo e deu muito trabalho, inclusive prejudicando a parte elétrica. No final de outubro, o motor Mold 22, estander e original, foi retirado e feita uma retifica completa sendo recolocado em Janeiro de 2002.

Estamos em fevereiro de 2002, portanto esta foi a primeira viagem do barco com motor novo e parte elétrica revisada. Bom mesmo é velejar, mas um bom motor é imprescindível, e quanta diferença faz... Já havia passado tanta raiva com este motor que a viagem pareceu um sonho, de tão tranqüila - só o prazer de ligar o motor somente na chave e sem a manivela já foi demais de bom.

Segui para a Baia da Ribeira (Ilha Paquetá, etc) passando antes na Cotia e Ilha do Cedro. Mergulhei bastante de esnorquel, velejei a toa e curti muito a viagem. Nos dois últimos dias tive a tripulação aumentada pela minha mãe e duas tias que se adaptaram muito bem a bordo mesmo com os seus 183 anos, somados é claro. Confira os detalhes no diário de bordo abaixo. Boa navegada.

  • 1º Dia – Cuiabá – Paraty Sem novidades. Voei Gol das 2:45hs de MT a SP, carona até a rodoviária do Tiete com amigo Rodolfo e ônibus das 8hs, chegando em PTY as 14:30hs. Dormi um bom sono a tarde, a noite fui as compras e tomar umas no Coupê.

  • 2º Dia – Paraty Chamei o Vicente eletricista que deu uma revisada na parte elétrica pós reinstalagem do motor. O Alberto mecânico veio regular a marcha lenta. Dia de muito trampo. Tomei todas sem dor na consciência a noite em PTY.

  • 3º Dia – Paraty – Ilha da Cotia Deu tudo certo em Paraty, afinal conseguir trazer um eletricista e um mecânico ao barco em um mesmo dia numa sexta feira e ver os serviços terminados, estatisticamente é quase um milagre. Quem tem um barco sabe do que estou falando. Finalmente sai. Motorada tranqüila cruzando com varias escunas, sempre torcendo para que aquelas menininhas da proa caíssem na água para eu poder prestar um socorro, mas nada. A Cotia, que abrigo...Final de tarde com uma chuvinha gostosa, bom rango, cervejinha, Zizi Possi no toca CD: “...a paz, invadiu o meu coração...”.

  • 4º Dia - Ilha da Cotia Fui dormir assim: ...a paz, invadiu o meu coração..., e acordei as 3 da madruga com um trecho da mesma musica que diz assim: ...como se o vento de um tufão, arrancasse os meus pés do chão... Entrou um ventão que agitou a ancoragem. Haviam 9 veleiros e foi um corre-corre com gente passando cabos, prendendo toldos, muitas lanternas acesas em uma grande atividade. No Champa tava tudo em ordem, fiquei ali de plantão umas duas horas e voltei a dormir. A tarde armei a churrasqueira e fiquei ali comendo uns grelhados. Apesar de quente, no final da tarde choveu muito e juntou tanta água no bote que tomei nele um banho de banheira: um luxo.. Dormi cedo porque a pauleira da madrugada me deixou quebrado.

  • 5º Dia – Cotia – Paraty – Engenho Dia de voltar para Pty para pegar o Rodolfo, 2 horas de motor num mar liso. Corri pra cidade e fiz correndo as compras para dois passarem 10 dias. Fiquei esperando, esperando, esperando e quando finalmente consegui falar com ele, me disse que não viria. Merda, podia ter me ligado antes, assim nem voltaria a Paraty, alem do mais fui obrigado a, durante toda a viagem, beber o dobro de cervejas e comer queijos e salaminhos por dois. Zarpei para a praia do Engenho. A noite fiquei “ouvindo estrelas” deitado no convés tentando determinar as constelações. Foi a primeira noite sem chuva desde a chegada.

  • 6º Dia – Engenho – Ilha do Cedro. De manhã fui lavar roupas no rio do Engenho, almocei, preparei o Champa e fiquei esperando pintar um ventinho. Motorei um pouco e velejei por 2hs num bordo só com a proa na ilha no Cedro, numa media de 4.5´, simplesmente delicioso. O Cedro é um ilha que tem uma pequena praia no fundo de uma baia que é um excelente abrigo. Como fica bem perto do continente, a vista da serra do mar é grandiosa, do Cedro se avista até a rodovia Rio-Santos. A tarde tive um sono assim... de doente, mas dormi e fiquei bem. Noite seca e muito clara com a lua crescendo.

  • 7º Dia - Ilha do Cedro Resolvi permanecer por aqui para explorar a Ilha. De manha fiz uma grande faxina. Como fui a prainha e não havia trilhas, abasteci o bote com cerveja e comidinhas e sai beirando a costeira do lado de sotavento. Subi umas pedras e passei para o outro lado da ilha. Lindo, uma costeira muito alta onde o mar bate entre fendas. Do alto se avista até a Ponta da Juatinga muito ao longe. Acima da costeira tem uma vegetação muito rica e cheia de lagartos. Voltei ao bote, comi algo e cai para um esnorquel em uma pequena ilha tão baixa que parece uma restinga: vi os peixinhos de sempre com um cachorro muito chato latindo o tempo todo la na areia: -Vem cá dentro d´agua machão!!. Voltei já quase de noite ao Champa. Como é fácil passar o dia fazendo nada e fazendo tudo.

  • 8º Dia – Ilha do Cedro – Ilha Paquetá (Baia da Ribeira) Por volta das 11hs, zarpei rumo a Baia da Ribeira sob um céu nublado mas claro. Segui por dentro passando pelas Ilhas Araraquara e Sandri num mar espelhado. Em outras vezes que passei por aqui, sempre contornei a Ilha Comprida, mas desta vez resolvi passar entre a ilha e o continente através de uma pequena garganta de uns 30m de largura por onde flui a água de duas grandes baias. Consultei a tabua das marés e vi que estava na preamar, segui bem devagarzinho pelo meio. Lindo, da pra ver as pedras do fundo e as que avançam da costeira da ilha e do continente. Passei com profundidade de 4m, mas é preciso muita atenção. Este caminho encurta o trajeto umas 3MN. Cheguei em Paquetá, acenei para a única família que mora por ali e toca um pequeno bar avisando que iria pegar a poita, tudo OK. Amo este lugar: belíssimo de águas muito limpa e muito bem abrigado. Daqui avistam-se outras ilhas próximas e a pequena praia, a única da ilha que da passagem para o lado de barlavento de onde se ve a baia, a Ilha da Gipoia entre outras, e bem ao fundo o mar aberto. A poita fica há uns 4m de profundidade e avista-se ela inteirinha. Por precaução, sempre mergulho e passo um cabo direto da poita ao barco. O barco fica ancorado a uns 5m de uma costeira muito íngreme, cheia de bromélias e outras plantas. Esta poita é de um Barco Bar que só aparece por aqui nos finais de semana. Como o céu estava nublado, no final da tarde, quando o sol venceu a barra das nuvens e ficou entre as nuvens e o mar, entrou uma claridade dourada e absurdamente linda, difícil até de descrever. Fiquei ali tomando uma cervejinha e observando as nuances daquele efeito até o anoitecer. Que dia...

  • 9º Dia - Ilha de Paquetá e praias De manha juntei umas coisas que só estavam ocupando espaço. Algumas coisas deixadas ou esquecidas por amigos e outras coisas inúteis do próprio barco. Fiz uma grande trouxa com tênis, cobertor, lençol, toalhas, fronhas, camisetas, sunga, biquínis, cabos, vidrinhos, potes, travessas, panelas, conexões, etc. Parodiando Herbert Viana “Eu hoje joguei tanta coisa fora, o barco fica bem melhor assim”, ganhei um bocado de espaço. Dei tudo isso ao pessoal da casa em terra, eles me retribuíram com peixes e gelo, foi ótimo. Esse bota fora é necessário de tempos em tempos. Tem coisas que a gente vai guardando achando que um dia será útil e sempre vai topando com elas em todos os cantos do barco. Chega um dia que temos que fechar os olhos e colocar tudo num saco e por pra fora, alias como muita coisa na vida, não é mesmo?. Filosofias a parte, o dia seguiu bem. Como tinha que carregar as baterias, dei uma motorada atrás de vento. Passei por praias lindas e ótimos locais para se fundear durante o dia, sempre com cuidado nas pedras que ficam perto da margem: Piraquara, Ponta da Fortaleza e do Pasto, etc. Motorei por quase duas horas e retornei ao Paquetá com a satisfação de quem volta pra casa. Final de tarde com o mesmo visual de ontem, e noite muito clara com a lua já quase cheia.

  • 10º Dia – Ilha de Paquetá Dia de muito sol. Como era sábado, passaram por aqui varias lanchas, veleiros e escunas de turismo. Ficou agitada a ancoragem com muito falatório e som alto. Prefiro o sossego, mas uma baguncinha de vez enquando é até divertido. Tava rolando uma regata no meio do canal e fui vê-la de perto. Fiquei velejando ao largo das bóias vendo os barcos em intensa atividade, devia ter uns 50 veleiros, era uma etapa do campeonato estadual. No retorno a Paquetá, cruzei com o Léo, amigo de Cuiabá em sua enorme Ferreti, conversamos um pouco e ele me convidou pra irmos em terra, mas recusei porque retornaria no outro dia a Pty. Fiz um esnorquel noturno com a lua muito clara e a água bem quente: muitos carangueijos.

  • 11º Dia - Ilha de Paquetá – Paraty Zarpei as 8hs rumo a Paraty. Com o mar liso, desentoquei o piloto automático que nunca havia funcionado para fazer umas novas tentativas e: FUNCIONOU!!!. Maravilha, enchi o Champa de beijos. Como de onde eu estava era praticamente uma reta até Pty, fiz o trajeto só zanzando pelo barco ora na proa, a meia nau, na cabine...uma tranqüilidade. Preferia seguir com o vento, mas ele não veio. Cheguei em Paraty as 12hs, tomei um banho decente e fiquei esperando a chegada de minha mãe, a tia irmã da mãe e outra tia vizinha da minha infância. Chegaram às 17hs de carro e então fomos bater perna e jantar em PTY.

  • 12º Dia – Paraty – Engenho Seguimos cedo para o Engenho. Desembarca-las apavoradas no o bote foi muito divertido. Assumi a cozinha, e que responsabilidade. Cozinhar para 3 mulheres que já são avós e cozinham divinamente não é fácil. Desde que me conheço por gente, filo a bóia delas, agora chegou a hora do retorno. Caprichei na mão e deu tudo certo. A noite rolou bingo e dominó a R$ 1.00 a rodada, quebrei...

  • 13º Dia – Paraty – Jurumirim Pulamos cedo e seguimos uma trilha até Jurumirim. Voltamos, almoçamos e retornamos a Paraty. A tarde elas seguiram de volta a São Bernardo do Campo, onde moram. Excelentes companhias, a mãe com 63, e as tias com 60 anos, parecem umas meninas: cantaram, falaram pelos cotovelos, contaram piadas, jogaram bingo e dominó, cooperaram em tudo, acataram as minhas orientações e se adaptaram muito bem ao pequeno espaço do barco. E que manha pra deixar as coisas limpas e arrumadas, o Champa nunca esteve tão arrumadinho. Com certeza ficariam muito mais dias. Prometeram voltar.

  • 14º Dia - Paraty Sempre que possível, reservo o ultimo dia para o barco, ele merece: arrumei e lubrifiquei a privada, refiz vedações, troquei óleo, etc. Como não sou de ferro, à noite fui ao Coupe comemorar o final da excelente viagem que fiz, e, pelo menos ver umas mulheres mais de perto. Valeu Champa, grande companheiro que agora esta a mil com motor e baterias novas.

  • 15º Dia – Paraty – São Paulo – Cuiabá Arrumei as malas pela manhã, embarquei no ônibus das 13.40hs e no avião em congonhas as 22.30hs chegando em Cuiabá as 00.00hs.

Tranqüilo. Partir para poder voltar, ter o poder de voltar para partir novamente e poder voltar...