Nome:
Local: Refugio das Caravelas, Paraty - RJ, Brazil

O Veleiro CHAMPAGNE é um sloop Cal de 30´ano 1986. Esta comigo desde 1999 e atualmente esta apoitado na Marina Refúgio das Caravelas em Paraty. Somente a partir de 2002 há registros das viagens na internet. Antes desta passagem pela Região de Paraty, Angra dos Reis e Ilha Grande, houveram passagens por Ilha Bela e Ubatuba, explorando-se todas estas regiões. Tenho estado no barco 6 vezes por ano em periodos de 12 a 20 dias sempre subindo em direção ao Nordeste, sem pressa e sem muito planejamento. Este site, mais do que um meio de divulgação, é principalmente um seguro arquivo pessoal. Uma curiosidade: moro em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso e centro geodésico da America do Sul, portanto estou em um dos pontos mais distantes do mar de todo o continente. Bem vindo a bordo, bons ventos e boa navegada. Fernando Quaresma

segunda-feira, setembro 09, 2002

Viagem 4

Estive novamente com o Veleiro Champagne na Ilha Grande entre 28 de agosto e 09 de setembro de 2002. Desta vez acompanhado do Rodolfo, grande amigo e companheiro de mergulho, vela e cachaça. Mais uma vez uma ótima viagem, e, se o tempo não ajudou muito, pelo menos trouxe um bocado de ação a esta passagem. O termo Tempo Instável foi literalmente sentido. Teve de tudo: dias de sol, de chuva, de frio e de muito vento com a chegada de duas frentes frias. A primeira nos deu uma madrugada infernal na Crena (Abraão) e a outra no dia da Pátria foi noticia no Brasil inteiro devido aos fortes ventos que fizeram grandes estragos no litoral. Essa frente pos a gente num tremendo sufoco na Enseada do Sitio do Forte e nos deu uma singradura difícil, muito molhada e fria, mas divertida no retorno a Paraty. Esta tudo relatado no 11º dia do diário de bordo. O Champa esteve muito bem. Quebramos a cabeça com uma das baterias e no final era só um parafuso solto no botão de conexão da bateria com o painel e o alternador. Outras atividades foram só alguns detalhes como o relógio de temperatura e bomba de pe do banheiro. Levei algumas caixinhas (organizer) e colocamos muita coisa em ordem nas gavetas e armários do barco, ficou ótimo. Tivemos ainda muitas caminhadas, altas façanhas culinárias com o Rodolfo esbanjando seus dotes, muita cachaça no Abraão, reunião com amigos no Champa já em Paraty e etc. Tudo regado a muitas caixas de cerveja em Lata Cintra compradas a R$ 0,59 em Paraty. Saiba de tudo lendo o Diário de Bordo abaixo. Boa navegada.

DIARIO DE BORDO

1º Dia

O de sempre. Sai de Cuiabá as 2.15hs da manhã voando Gol, chegando em congonhas às 6hs. Um taxista maluco me levando para a rodoviária quase deu uma porrada na av. 23 de Maio. Saindo no ônibus das 8hs cheguei em Paraty as 14.30hs. Tranqüilo, mesmo porque o Rodolfo já estava no barco com muita coisa arrumada. Neste dia ainda deu tempo de fazer as compras e tomar umas em Paraty.

2º Dia

Deu tudo certo. Abastecemos diesel e gelo e zarpamos rumo a Ilha Grande menos de 24hs depois da minha chegada, o que eu acho ótimo. Já estava desacostumado em navegar acompanhado e revezar o timão foi um grande conforto. Navegada tranqüila com mar calmo e um final de tarde divinal regado à cerveja já no traves do Saco de Céu. Ancoramos já noite na Crena, próximo ao Abraão, local já descrito em outro diário de bordo. Singramos 35,2MN em 7,18hs – AVG 4,8´.

3º - Dia

Com tempo bom mas querendo mudar desembarcamos e seguimos a trilha do Abraão-aqueduto-Lazareto, repetida mas sempre interessante. Desta vez subimos e andamos por cima do aqueduto. A altura da passarela nos leva a andar beirando a copa das arvores mais altas. Tomamos umas na beira da praia e voltamos ao Champa. A noite choveu e não desembarcamos.

4º - Dia

Amanheceu chovendo e ficou assim quase o dia todo. Aproveitamos e demos uma geral no barco acomodando tudo que estava nas gavetas e armários em caixas, caixinhas e caixões plásticos que eu trouxe, ficou muito bom. Como era sábado e a chuva deu uma trégua, depois de uma cochilada desembarcamos la pelas 21.30hs e fomos ao Abraão tomar umas. Tava ate bom e voltamos já meio bebos la pelas 3hs. Daí então a frente que parecia estacionaria chegou de vez as 4.30hs e fez da nossa noite um inferno com vento muito forte e muita chuva. Ficamos de plantão passando frio ate as 7.30hs quando finalmente o vento deu uma trégua e podemos voltar pra cama e dormir ate as 11hs. Um inferno.

5º Dia

Um domingo frio e de muita chuva. La pelas 15hs clareou e então podemos seguir uma trilha ate o Abraaozinho, uma enseada pequena e muito linda. Voltamos escalando a costeira com muitos pássaros e bromélias. Um Atunzeiro estava em atividade bem perto da costa numa tremenda faina que formava um visual lindíssimo com a baia ao fundo. Já anoitecendo retornamos ao Champa, jantamos e dormimos muito bem num mar totalmente calmo. Um dia que começou com uma madrugada de vento infernal e uma manha sombria terminou muito bem com um ótimo passeio e uma noite fresca para dormimos como pedras.

6º Dia

Dia frio, mas sem chuva, seguimos de barco para o Abraão e eu desembarquei para fazer algumas compras, inclusive gelo. Com a chegada da frente criou-se uma ressaca no mar fazendo a maré do lado do canal ficar muito alta e, ainda com o vento contra deu um trabalhinho encalhar o bote na praia mas deu certo. O Rodolfo ficou circulando porque não achamos uma poita para amarrar o Champa. Quando eu voltei saímos empopados a 6 nos só com a mestre ate dobrarmos a ponta que nos levaria a enseada de Palmas. Daí o vento aumentou e ficou de proa, levantando um mar chato. Mesmo com o motor a um giro que nos levaria a uns 7 nos de velocidade não conseguíamos desenvolver mais do que 4 com muitos borrifos molhando a gente. Bem desconfortável. Depois da ancoragem no Pouso em frente ao bar do Sergio o vento parou e então desembarcamos para um curto passeio pela praia. Singramos 7.55MN em 2.25hs com mais ou menos uma hora a vela.

7º Dia

Finalmente amanheceu um dia lindo e cintilante. Saímos cedo para Lopes Mendes, considerada uma das 10 praias mais bonitas do Brasil pelo Guia 4 rodas e não é a toa, é linda mesmo. Como ela fica a barlavento e o mar estava de ressaca, ficou demais. Fomos indo pela praia tomando uns banhos ate o final e voltamos por dentro da Ilha passando por riachos e um corredor de eucaliptos centenários lindíssimos. Saímos na praia da Aroeira já do lado de sotavento da Ilha, próximos ao nosso ponto de partida. Chegamos ao Pouso onde estava o Champa e tinha uma moçada cuidando de um Pingüim que apareceu por lá. Descansamos um pouco no bar do Sergio e seguimos rumo a praia de Palmas em 50min de caminhada. Palmas é linda com alguns campings e pousadinhas em um local muito tranqüilo ladeado por um rio de água muito doce onde dizem que mora um jacaré trazido por um alemão. Um cara muito legal que saiu do Rio e mora ali há 8 anos foi tirar onda de descolado cheio de gírias com o Rodolfo, e, depois de ouvir que éramos de MT e estávamos em um veleiro, pirou e falou assim:´´– Porra ai, eu penso que sou o maio maluco mas sempre aparece uns mais doidos que eu mermão´´. Rimos muito da historia. Voltamos ao Champa já anoitecendo, comemos muuuito e apagamos em uma noite fresca e muito tranqüila. Estávamos mortinhos, tínhamos andado mais de 10km. Um dia nota 1000.

8º Dia

Depois das arrumações saímos motorando rumo ao Saco do Céu. Conseguimos velejar um pouco empopado com o Abraão no traves. A chegada no Saco do Céu é sempre uma visão linda. Pegamos uma poita em frente ao Restaurante Coqueiro Verde do Damásio, desembarcamos e passeamos pela vila ate um píer abandonado onde ficamos curtindo um final de tarde meio nebuloso. Tentamos comprar um peixe para janta e não conseguimos. Só um peixe os barcos de pesca não quiseram vender, uma pena.

9º Dia

La pelas 8.30hs partimos em caminhada rumo a cachoeira da Feiticeira, um lugar que a tempos eu queria ir. Passamos por diversas praias e rios e fomos subindo, subindo e já bem la em cima seguimos umas entradas meio na intuição e conseguimos chegar na Cachoeira, que fica bem no meio de uma mata linda. O conceito de cachoeira pelas bandas de MT e de algo muuuito maior, mas a Feiticeira e belíssima. Voltamos por volta das 13hs, agradecemos ao Damásio e sua Esposa pela poita e pela água doce que pegamos e seguimos rumo a ilha de Macacos em uma navegada tranqüila em um mar espelhado. Final de tarde lindo com um por de sol de sonhos sobre a Serra do Mar. Dormimos muuuito, tínhamos andado bastante rumo a Feiticeira.

10º Dia

Macacos é um local ótimo para um esnorquel, mas com a chuva que andou caindo a água tava turva e muito fria, não rolou. Zarpamos rumo a Ubatubinha na enseada do Sitio do Forte velejando em um bom través. Ancoramos no Lelé, desembarcamos, comemos uns pasteis e ficamos andando pela praia. Retornamos ao Champa e ficamos de papo no convés sob um vento quente bem estranho. Por via das duvidas dei mais cabo ao ferro já prevendo alguma chuva. Como era sexta feira nem pedi uma poita ao Lelé porque sempre chega gente a noite. Comemos muuuito e dormimos bem cedo. Dar mais cabo e deitar cedo foram decisões acertadas porque a madrugada seguinte foi lenha.

11º Dia

Esse foi O DIA!!!. Vou narra-lo em partes porque foi looongo.
  • 1ª Parte – Pauleira na Madrugada. La pelas 4,30hs acordei com um vento forte entrando e pensei “Vai começar tudo de novo como no Abraão”, foi muito pior do que eu imaginava. Em minutos o vento virou de tempestade, estimado por todos em torno de 30 a 35 nós (não temos anemômetro no Champa para podermos mentir sobre a velocidade do vento sem dor na consciência). Corri para a proa e dei mais cabo. Neste instante passou garrando muito próximo do Champa o Sussurro, um fast 395.(garrar embora parecido com agarrar, na linguagem náutica significa arrastar a ancora). Ele enroscou batendo muito forte no Mistral, um fast 345 que estava em poita. Logo depois passou uma lancha de uns 45” que também garrou e enganchou junto com o Sussurro e o Mistral. O barulho dos barcos batendo os costados era de arrepiar. Embora com bastante cabo, senti que o Champa também garrava um pouco e fiquei controlando no motor mantendo distancia dos três barcos enroscados que estavam muito próximos. Quando o Champa ficava de lado no vento, navegava e adernava muito, era assustador. O vento uivava tão forte que eu e o Rodolfo nos comunicávamos aos berros. Enquanto eu controlava o Champa, o Rodolfo dirigia a luz do silibim aos barcos para ajudá-los, todos nós estávamos em grande atividade. Amarrei uma garrafa de água vazia no cabo da ancora como bóia de arinque e avisei ao Rodolfo que se o Champa garrasse mais iríamos soltar o cabo com o ferro e tudo e sair navegando. O pouco que o Champa garrou ajudou a ficarmos safos dos três barcos enroscados, então fui a proa e dei mais cabo. Começou a chover horizontalmente devido ao vento e a cair relâmpagos muito próximos. O barco balançava muito. Então o Rodolfo que estava com o silibim avistou próximo a nossa popa, uma poita. Fui dando cabo ate ficarmos próximos, passei um cabo da proa ate a popa e tentamos laçar a bóia da poita. Na primeira tentativa ela passou por baixo do Champa. Então o Rodolfo teve que levar o cabo pela proa para laçarmos pelo outro bordo. Consegui laçar a bóia e o cabo enganchou no cabo do bote. O croque havia caído na água e sumido. Com muito esforço safamos o bote e com calma fui dando cabo ate a bóia da poita ficar abaixo do púlpito de proa. Fiquei mais tranqüilo porque se o barco garrasse acabaríamos travando na poita ficando com a segurança do ferro e da poita, Constatei pela manha que o barco estava bem unhado porque o cabo da poita se manteve frouxo. Nisto o dia já estava amanhecendo e já se passara mais de duas horas desde o inicio do vento, então sobrou algum tempo para vestirmos os impermeáveis e tomar algo quente. La pelas 7hs o vento acalmou e podemos voltar a dormir. Os barcos enroscados conseguiram se safar com poucos danos. Começamos ouvir no radio boletins extras que davam conta dos estragos que o vento havia feito no Rio e em toda região. Um sufoco, foi o maior vento que vi em toda minha vida, seja em terra ou no mar. -

  • INTERVALO – Acordamos la pelas 10hs com o céu encoberto porem claro e sem vento algum, passamos ate protetor solar. Fomos a praia e juntamo-nos a outros velejadores para comentar o ocorrido na madrugada, cada um tinha uma historia pra contar. O Lelé que mora ali há 12 anos falou que nunca viu nada parecido. Pedi opiniões de como estaria o tempo para a travessia ate Paraty e todos pensavam como eu: estaria calmo porque a frente fria já havia se estabelecido. Voltamos ao Champa, preparamos tudo e zarpamos de volta, seriam pelo menos 5hs de mar. 2ª Parte – A volta a Paraty – Quando dobramos a Ponta do Sitio do Forte, saída da enseada, avistamos o mar liso e sem ventos, porem para o lado da ponta da Juatinga, distante umas 23MN avistei muitas nuvens pretas. Seguimos bem umas 7MN, cruzamos com um enorme petroleiro, então começou a entrar um vento e velejamos um pouco. O vento foi apertando, o mar subindo e as nuvens pretas se aproximaram. Como o vento estava contra, forte e com o mar muito desencontrado ficou impossível de velejar. Escorei o barco na vela mestre e seguimos na vela e no motor. O mar subiu muito e os sprays das ondas lavavam o convés e nos ensopava. A vela mestre alem de ajudar na velocidade, adernava e escorava bem o barco dando um conforto muito maior do que se seguíssemos caturrando e balançando só a motor. Não faria a opção de sair com um tempo daqueles, mas como fomos pegos quase na metade do caminho, seguimos assim mesmo. Chegando a 7’ nas rajadas podendo manter o motor em baixa rotação, o Champa virou um verdadeiro motor-sail, uma experiência incrível. O vento ficou muito forte e firme e hora folgava, hora caçava a mestre numa intensa atividade. Seguimos assim passando muito frio, embaixo de um céu negro bem carregado. Chegamos em Paraty depois de 5,30hs de mar numa derrota de 24MN, fria, cansativa e divertida. Ancoramos, tomamos um banho decente, comemos e dormimos um pouco. A noite fomos a Paraty junto com o Alexandre e a Helo do veleiro Uluwatoo comer muuuito e tomar umas. Graaaannde dia.

12º Dia

Acordei com algumas dores pelo corpo devido a pauleira de ontem. Eu e o Rodolfo listamos algumas coisas pra fazer, mas daí foram chegando os amigos velejadores, marinheiros e outros e o poço do Champa virou uma festa regada a salgadinhos e Vodka/limão/tonica tingidos com Campari, o drink oficial do Champagne. Foram 1 ½ de vodka, ½ de Campari e alguns limões e tônicas. No final foram acabando os ingredientes e terminamos tomando caipirinha de vodka feita com tang de limão, coisa de bêbado, eca. O Rodolfo seguiu para SP de carona com o Alexandre e eu fiquei.

13º Dia

Dia de embora é dia de trampo. Fui as compras e arrumei diversas coisas no barco. Embarquei no Reunidas das 23,30hs.

14º Dia

Cheguei as 6,30hs na casa da mãe em São Bernardo e depois de muita comida e muita conversa com ela embarquei novamente em Congonhas as 22,30hs rumo a Cuiabá.

Fui.

Bons ventos

Fernando Quaresma